A Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) divulgou um levantamento sobre candidaturas trans e travestis nas eleições de 2026. O número encontrado — 116 — é o maior já registrado pela organização desde que ela começou a fazer esse tipo de contagem, em 2014. Na comparação com 2022, quando foram mapeadas 79 candidaturas, o crescimento foi de 45,6%.
O relatório não se limita a somar nomes: ele traça um perfil de quem está disputando as eleições, considerando identidade de gênero, raça/cor, orientação sexual, faixa etária, escolaridade, território, partido e cargo. O documento foi atualizado em 24 de agosto de 2026.
Quem são essas candidaturas
- Identidade de gênero: 104 candidaturas são de mulheres trans e travestis (89,6%), sete de homens trans ou pessoas transmasculinas e cinco de pessoas não binárias.
- Raça/cor: 79 candidaturas (69%) são de pessoas pretas ou pardas; 35 de pessoas brancas e duas de pessoas indígenas. Cinco pessoas se declararam quilombolas.
- Idade: 70,4% das candidaturas estão na faixa de 30 a 49 anos; 22 pessoas têm 50 anos ou mais.
- Escolaridade: 63 candidaturas (53,9%) têm ensino superior completo ou incompleto, enquanto 53 chegaram até o ensino médio ou menos. O dado mostra, ao mesmo tempo, presença acadêmica relevante e desigualdades educacionais que ainda pesam sobre a população trans.
Por que os dados oficiais não bastam
O Tribunal Superior Eleitoral havia divulgado 107 pessoas autodeclaradas trans. A ANTRA chegou a 116 por meio de um trabalho de verificação que cruzou os registros oficiais com redes sociais, grupos de WhatsApp, perfis em outras plataformas e o acompanhamento da própria organização durante o processo eleitoral.
As divergências aparecem de várias formas: pessoas cisgêneras que se declararam trans no cadastro, pessoas que pediram o uso do nome social sem serem trans e pessoas trans que simplesmente não marcaram essa identidade no título de eleitor. Ou seja, contar apenas o banco de dados oficial produz um retrato incompleto — para cima em alguns casos, para baixo em outros.
A partir disso, a entidade defende que o TSE publique uma lista centralizada e de fácil consulta das candidaturas autodeclaradas trans, no mesmo formato já usado para a relação de nomes sociais. Hoje, encontrar essas candidaturas exige garimpar fontes dispersas e, muitas vezes, já saber de antemão quem está concorrendo. Uma lista pública facilitaria o trabalho de eleitoras e eleitores, imprensa, pesquisadores, universidades e organizações da sociedade civil.
Onde as candidaturas estão
As 116 candidaturas se espalham por 23 das 27 unidades da federação. Por cargo, são 52 para deputada(o) federal, 61 para deputada(o) estadual, duas para deputada(o) distrital e uma candidatura de pessoa não binária a vice-governador(a).
No campo partidário, 89 candidaturas (76,5%) estão em legendas classificadas como de esquerda ou centro-esquerda. A presença em partidos de centro, centro-direita e direita mostra que a participação trans não está restrita a um único campo político.
Crescimento com barreiras
A série histórica da ANTRA é expressiva: sete candidaturas em 2014, 54 em 2018, 79 em 2022 e 116 em 2026 — alta de 1.540% em doze anos. Esse avanço, porém, acontece em um cenário de violência política de gênero, ataques a pessoas trans e desigualdades que continuam limitando o acesso à política institucional. Crescer não significa que as portas estejam abertas; significa que há organização e resistência de quem insiste em ocupar espaços historicamente negados.
Vale lembrar que o Brasil tem instrumentos jurídicos que importam nesse contexto: a Lei 14.192/2021 tipifica a violência política de gênero, e o STF equiparou, em 2019, a LGBTfobia ao crime de racismo. O nome social também pode ser solicitado na inscrição eleitoral, garantindo que ele apareça no título e na urna.
Cuidados com privacidade e exposição
Participar de política ou apenas acompanhar o debate público envolve riscos que merecem atenção, especialmente para pessoas trans e travestis:
- Compartilhe publicamente apenas o que for confortável. Dados como endereço, telefone pessoal e local de trabalho não precisam estar nas redes.
- Revise a privacidade de perfis antigos e verifique se fotos e postagens permitem que alguém descubra informações que você prefere manter reservadas.
- Desconfie de mensagens e convites de campanha que pedem documentos, dinheiro ou dados bancários por aplicativo — golpes eleitorais circulam com facilidade em ano de eleição.
- Se você sofreu ou presenciou violência política ou transfobia, registre provas (prints, áudios, links) e procure a Defensoria Pública, o Ministério Público Eleitoral ou organizações de apoio jurídico.
Para se informar melhor
O relatório completo reúne a lista das 116 candidaturas, com nome, número, estado, partido e cargo, além de análise de perfil e recomendações para melhorar os sistemas eleitorais. Vale acompanhar também o trabalho de organizações como a ANTRA, que desde 2014 produz esses dados de forma independente — um lembrete de que monitorar e tornar visível a participação política trans é, também, uma forma de reconhecimento e de fortalecimento da democracia.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Revise a privacidade de perfis antigos antes de se expor publicamente em campanhas ou discussões políticas.
- Desconfie de pedidos de documentos, dados bancários ou dinheiro por aplicativo em nome de campanhas eleitorais.
- Em caso de violência política ou transfobia, registre provas e procure Defensoria Pública, Ministério Público ou apoio jurídico especializado.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.
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