O que a ANTRA propôs
Em setembro de 2024, a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) lançou uma nota técnica sobre políticas de ação afirmativa para pessoas trans e travestis na educação superior. O documento reúne argumentos, dados e recomendações práticas para que universidades brasileiras adotem reservas de vagas — as chamadas cotas trans — e, tão importante quanto isso, criem condições reais para que esses estudantes consigam concluir o curso.
A nota não é só uma declaração de intenções: ela funciona como um guia de referência para gestores, conselhos universitários e comissões que queiram revisar suas políticas de ingresso e de assistência estudantil. Mais de 130 coletivos, organizações e grupos acadêmicos assinaram o texto, que foi elaborado com contribuições de pesquisadoras e pesquisadores trans, travestis e aliados.
Um retrato da exclusão
O ponto de partida é um número duro: menos de 0,3% da população trans e travesti está no ensino superior. Isso não acontece por falta de interesse ou capacidade, mas por um histórico de exclusão que começa muito antes da universidade — na escola, na família, no mercado de trabalho e nos serviços públicos.
A transfobia institucional aparece de várias formas: burocracia que não respeita o nome social, olhares e comentários hostis, ausência de banheiros adequados, falta de acolhimento em processos seletivos e currículos que ignoram a existência dessa população. A ANTRA argumenta que as cotas são uma resposta necessária para corrigir desigualdades acumuladas, e não um privilégio.
O que o documento recomenda
O texto lista cerca de 30 recomendações. Entre as principais:
- Cotas e reservas de vagas em universidades federais, estaduais e municipais, com previsão clara em edital e regras de ingresso bem definidas.
- Políticas de permanência, porque entrar é apenas o primeiro passo: bolsas de estudo, auxílio moradia e transporte, apoio psicológico e acompanhamento pedagógico.
- Respeito à identidade de gênero, incluindo o uso obrigatório do nome social em listas, diários, crachás, e-mails institucionais e sistemas acadêmicos.
- Comissões de acompanhamento das ações afirmativas, para verificar quem realmente está sendo beneficiado e evitar fraudes nas autodeclarações.
- Ampliação da assistência estudantil para atender necessidades específicas da população trans, considerando também recortes de raça e classe.
- Divulgação das políticas, com informação acessível sobre como concorrer às vagas e a quem recorrer em caso de discriminação.
- Espaços de acolhimento e segurança dentro do campus, para reduzir a evasão provocada pela violência cotidiana.
A nota insiste que as cotas, sozinhas, não resolvem nada. Sem permanência, o ingresso vira uma porta que se abre e logo se fecha.
Por que isso importa no Brasil de hoje
A lei federal de cotas (Lei 12.711/2012) abriu caminho para políticas de reserva de vagas por escola pública, renda e critérios raciais, mas não trata especificamente de pessoas trans. Por isso, a adoção de cotas trans depende, na maioria dos casos, de decisão de cada instituição ou de legislação estadual e municipal — o que explica por que apenas algumas universidades têm esse tipo de política até agora.
Vale lembrar de dois instrumentos que já existem e podem ser acionados: o Decreto 8.727/2016, que garante o uso do nome social em órgãos da administração pública federal, e a decisão do STF de 2019 que enquadrou a LGBTfobia como crime nos termos da Lei do Racismo. Muitas universidades também têm resoluções próprias sobre nome social — vale procurar a sua e guardar o contato da ouvidoria.
O histórico da ANTRA
A defesa do direito à educação acompanha a entidade desde sua fundação. Em 2001, a campanha "Travesti e Respeito" colocou o tema na agenda pública e deu origem ao Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro. Foi a primeira campanha nacional feita em parceria com o governo federal.
Nos últimos anos, a ANTRA tem publicado notas técnicas sobre temas variados, como acesso a banheiros e cuidado em saúde, sempre com o olhar da própria comunidade sobre políticas públicas. A expectativa é que universidades e autoridades usem o documento como base para reformular suas regras de ingresso e de permanência, tornando os campi espaços mais plurais e democráticos.
O que você pode fazer
Se você é estudante trans ou travesti e quer entrar na universidade, procure a pró-reitoria de graduação ou de assistência estudantil da instituição e pergunte se existe reserva de vagas e como solicitar o nome social. Guarde por escrito os pedidos feitos em canais oficiais — isso ajuda em caso de negativa.
Se você já está na academia, apoie a criação de uma comissão de acompanhamento na sua universidade e converse com coletivos do campus. As recomendações da nota técnica da ANTRA são um bom roteiro para levar ao conselho universitário.
Imagens da publicação original
Imagens reproduzidas da publicação original em ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais, com autorização. Os direitos pertencem aos autores e fotógrafos. É titular e quer a remoção? Solicite aqui.
Segurança
- Ao pedir o uso do nome social em processos seletivos ou no campus, registre o pedido por e-mail ou protocolo: o histórico de comunicações é sua proteção em caso de descumprimento.
- Se sofrer discriminação na universidade, procure a ouvidoria, a pró-reitoria de assistência estudantil e organizações como a ANTRA; a LGBTfobia é crime no Brasil desde a decisão do STF em 2019.
- Cuidado com promessas de aprovação garantida, vagas vendidas ou intermediários que cobram por inscrição em cotas: políticas afirmativas são gratuitas e definidas em edital público.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.
Discussão
Ainda não há discussão sobre este conteúdo.
Começar a discussão

