Um colunista e uma polêmica de 2003
Daniel Seligman, conhecido como Dan Seligman, viveu de 1924 a 2009 e assinava uma coluna na revista Forbes. A página do Transgender Map o descreve como membro do Human Biodiversity Institute, grupo fundado por Steve Sailer e associado a ideias neo-eugenistas. Em outubro de 2003, Seligman publicou na Forbes o texto Transsexuals and the Law, no qual elogiava o livro The Man Who Would Be Queen, de J. Michael Bailey.
Para entender por que essa coluna ficou marcada, é preciso olhar para o contexto. O livro de Bailey, lançado em 2003, tratava de meninos e homens afeminados e dedicava capítulos finais às pessoas trans. A obra gerou protestos de parte da comunidade trans e de aliados. Seligman saiu em defesa do autor, apresentando-o como alguém simpático a gays e pessoas trans e argumentando que a decisão de muitas pessoas de transicionar seria racional.
A tipologia de Blanchard e o termo contestado
O ponto mais delicado da obra de Bailey era a explicação sobre as origens da identidade trans. Ele se apoiava no trabalho de Ray Blanchard, então ligado ao programa de sexologia clínica do Clarke Institute of Psychiatry, em Toronto. Blanchard propôs dividir mulheres trans em dois grupos: um tipo chamado de clássico, associado a homens afeminados desde a infância, e outro descrito pelo termo autogynephilia.
Esse termo, criado por Blanchard, é uma categoria sexológica controversa. Ele tentava descrever pessoas trans que se sentiriam excitadas pela imagem de si mesmas como mulheres. A formulação é criticada por muitas pessoas trans, por pesquisadores e por organizações que a consideram reducionista, estigmatizante e incapaz de explicar a diversidade das experiências trans. É importante dizer com clareza: autoginefilia não é um diagnóstico informal que se deva aplicar a crossdressers, a pessoas trans ou a qualquer pessoa. Crossdressing é uma forma de expressão, enquanto identidade de gênero é outra dimensão; drag, travesti, pessoa trans e pessoa não binária também não são sinônimos.
Seligman mencionava ainda a economista Deirdre McCloskey, professora da Universidade de Illinois em Chicago, que transicionou em meados dos anos 1990 e, antes disso, era conhecida como Donald McCloskey. Bailey a teria citado como exemplo do tipo autoginefílico. McCloskey reagiu com raiva, rejeitando a ideia de que sua vida pudesse ser explicada por motivação sexual. O episódio mostra como categorias acadêmicas podem ferir quando são usadas para resumir histórias pessoais complexas.
Números, visibilidade e disputa política
A coluna também entrava na disputa sobre quantas pessoas trans existiam. O DSM-IV estimava que 1 em cada 30 mil homens e 1 em cada 100 mil mulheres optavam por cirurgia de redesignação. Bailey falava em 1 em cada 12 mil homens, o que sugeriria cerca de 8 mil pessoas nos Estados Unidos. A cientista da computação Lynn Conway, que trabalhou na IBM e foi professora emérita da Universidade de Michigan, falava em 30 mil a 40 mil pessoas.
Esses números precisam ser lidos com cuidado. Estimativas antigas costumavam contar apenas quem realizava cirurgias, não todas as pessoas trans, e dependiam de definições estreitas. Além disso, usar contagens populacionais como arma retórica desvia o foco do que importa: direitos, acesso à saúde, segurança e respeito. Seligman chamava ativistas de propagandistas que inflariam os números, uma formulação que soa desqualificadora e reforça estigmas.
O que essa história ensina hoje
A coluna de Seligman é um retrato de como a mídia mainstream tratava temas trans no início dos anos 2000. Havia espaço para opiniões de autores sem formação em saúde trans, para explicações sexológicas simplistas e para um tom que tratava a comunidade como objeto de debate, não como interlocutora. A página do Transgender Map, ao resgatar o episódio, ajuda a lembrar que controvérsias midiáticas não são apenas discussões abstratas: elas influenciam leis, políticas públicas e a forma como pessoas trans são vistas.
No Brasil, o debate também avançou. O direito ao nome social, o uso do nome social em escolas e serviços públicos e a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal em 2019 são marcos importantes. Ainda assim, matérias sensacionalistas e rótulos diagnósticos apressados continuam a causar danos. Ao ler textos antigos como esse, vale checar quem escreve, quais instituições defende e se as fontes trans foram ouvidas com respeito.
Para quem se interessa por crossdressing e expressão de gênero, a lição prática é separar identidade de comportamento, evitar categorias que patologizam e desconfiar de explicações únicas para vidas tão diversas. Pessoas trans, travestis, crossdressers e drags podem compartilhar questões de visibilidade, mas têm histórias e demandas próprias. Escutar sem reduzir é o primeiro passo.
Segurança
- Categorias sexológicas antigas não servem como autodiagnóstico; se um texto soar como julgamento, procure apoio de profissionais e comunidades trans.
- Ao pesquisar identidade de gênero, priorize fontes atuais, respeitosas e com participação de pessoas trans, e proteja sua privacidade em fóruns públicos.
Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de Transgender Map - crossdressing. Recomendamos a leitura do original.
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