Um levantamento feito à mão, com propósito político

Em fevereiro de 2018, a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) divulgou um levantamento com 53 candidaturas de pessoas trans que disputariam as eleições daquele ano. O número era resultado de um esforço artesanal: a associação recolheu os dados por conta própria, com formulário próprio e ajuda de parceiros nas redes, sem verba e sem fins lucrativos. O objetivo declarado era simples e grande ao mesmo tempo — dar visibilidade a travestis, mulheres trans e homens trans que decidiram ocupar o espaço da política partidária.

Vale lembrar que 2018 foi um ano de novidades institucionais. Foi a primeira eleição em que candidaturas trans puderam ser registradas com o nome social, resultado de anos de pressão do movimento. O nome social também passou a constar no título de eleitor, o que a associação esperava que ampliasse a participação de pessoas trans como eleitoras. Além disso, por determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as candidaturas trans femininas passaram a concorrer na cota de gênero das legendas e a acessar o fundo partidário em igualdade com as demais mulheres.

Por que isso importa

A nota da ANTRA não era só uma lista de nomes. Vinha embalada por um diagnóstico duro: o Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo, e a impunidade em torno desses crimes é parte do problema. Para a entidade, cada candidatura funcionava como resposta a esse cenário — uma forma de deixar de ser "moeda de troca" em acordos de poder e passar a ter voz própria nas casas legislativas.

O texto também comparava os números com 2014, quando apenas cinco candidaturas trans foram registradas. Em 2018, o levantamento apontava um crescimento de nove vezes na presença trans na disputa eleitoral.

Os números por cargo

Segundo o mapeamento, a distribuição era a seguinte:

  • 1 candidatura ao Senado Federal;
  • 2 candidaturas a deputado/a distrital pelo Distrito Federal;
  • 17 candidaturas a deputado/a federal;
  • 33 candidaturas a deputado/a estadual.

A presença era desigual entre os estados, mas alcançava todas as regiões do país — do Amazonas simbólico das urnas ao Rio Grande do Sul. A ANTRA ressaltava que a lista poderia estar incompleta: havia candidaturas enviadas por formulário sem confirmação até o fechamento do texto, e outras tantas que talvez não tenham chegado ao conhecimento da associação. Também existia a possibilidade de desistências.

Nomes que a lista trazia

Entre as candidaturas citadas estavam figuras que, anos depois, se tornariam conhecidas nationalmente na política brasileira — caso de Duda Salabert, então candidata ao Senado por Minas Gerais pelo PSOL, e de Erika Hilton, que disputava uma vaga de deputada estadual em São Paulo pela Bancada Ativista/PSOL. A lista incluía ainda Robeyoncé Lima (PE), Linda Brasil (SE), Keila Simpson e Bruna Benevides assinando o documento como lideranças da ANTRA, além de dezenas de outras candidaturas espalhadas por estados como Bahia, Ceará, Rio de Janeiro, Paraná, Santa Catarina e Tocantins.

A associação fazia uma ressalva importante: o apoio não era exclusivo a esta ou aquela legenda ou candidatura. O gesto era de reconhecimento do significado daquele movimento coletivo, com votos de sorte e disposição de sustentar o apoio até o fim da campanha.

O que essa história ensina hoje

Olhando em retrospecto, o levantamento de 2018 ajuda a entender como a presença trans na política institucional brasileira saiu de um punhado de nomes para um fenômeno com peso eleitoral. Também mostra que conquistas formais — nome social no registro, cota de gênero, acesso ao fundo partidário — não caíram do céu: foram resultado de articulação política e de cobrança constante.

Para quem pensa em seguir caminho parecido hoje, alguns aprendizados práticos ficam evidentes:

  1. Documentação em dia: nome social no título de eleitor e nos registros partidários é direito e deve ser exigido na convenção e no cartório eleitoral.
  2. Rede de apoio: candidaturas isoladas sofrem mais. Buscar coletivos, associações e grupos de apoio jurídico faz diferença na hora de enfrentar impugnações e ataques.
  3. Registro de tudo: a ANTRA montou sua lista de forma colaborativa, por formulário. Fazer o mesmo no seu estado ajuda a mapear forças e a construir memória do movimento.
  4. Cuidado com a exposição: campanha significa virar alvo público. Vale pensar em proteção de dados pessoais, endereço, redes sociais e segurança física antes de anunciar a candidatura.

Um corpo político

A mensagem final daquele comunicado segue atual: o corpo trans na política não é curiosidade nem vitrine — é pauta, é demanda por saúde, educação, segurança e reconhecimento. Se você se interessa pelo tema, vale procurar a ANTRA e associações estaduais para acompanhar levantamentos mais recentes, e lembrar que o direito de existir e de ser votada/o caminha junto com a defesa intransigente da vida de todas as pessoas trans.

Segurança

  • Exposição pública em campanha eleitoral aumenta o risco de ataques transfóbicos: cuide de dados pessoais, endereço e perfis em redes sociais antes de anunciar sua candidatura.
  • Se você sofre ameaças ou violência por identidade de gênero, procure a Defensoria Pública, a Comissão de Direitos Humanos da OAB ou registre boletim de ocorrência; a LGBTfobia é criminalizada pelo STF desde 2019 (ADO 26).
  • Este texto é um resumo histórico e informativo, não orientação jurídica eleitoral. Para registro de candidatura com nome social, consulte o cartório eleitoral e a assessoria jurídica do seu partido.
Fonte original

Este texto foi reescrito e adaptado para o português a partir de ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Recomendamos a leitura do original.

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